Quatro
5. Apreciando Flores através do Véu
Yinzhen suspirou, mais uma vez, diante das vicissitudes do mundo, e recompôs sua postura fraterna, agradecendo a Yinqi, ergueu as vestes e sentou-se com dignidade. Inclinando-se ligeiramente, dirigiu-se ao irmão sentado atrás, Yinsi:
— Xiao Ba, o resfriado já melhorou?
Yinsi respondeu com respeito:
— Agradeço o cuidado do quarto irmão. Descansei dois dias, já não é nada.
Seguiram-se horas tediosas de leitura e caligrafia, nas quais Yinzhen, resignado, repetia por centésima vigésima vez as tarefas escolares, ou ouvia o mestre discorrer sobre as virtudes da lealdade, piedade filial, integridade, decência e vergonha, citando clássicos e exemplos.
Se a doutrina de Confúcio e Mêncio fosse suficiente para extirpar toda inclinação rebelde, talvez o império jamais teria testemunhado tantas mudanças de dinastia desde Qin e Han.
Por fim, a aula terminou, e Yintang e Yin’e, já incapazes de suportar o desconforto, imediatamente convidaram Yinsi a ir brincar no Palácio Yikun, onde residia a Concubina Yi.
Yinzhen, atento, escutava os irmãos conversarem, e ouviu Yinsi hesitar:
— Mas, quanto à mãe, estive doente estes dias e não fui prestar-lhe meus respeitos.
Yintang insistia, mas Yinzhen, astuto, interveio:
— Oitavo irmão, o Príncipe Herdeiro ainda nos aguarda, não devemos nos atrasar.
Yinsi, resignado, percebeu que não teria tempo para brincar:
— De fato, quando estive doente, o Príncipe Herdeiro enviou-me um ruyi de presente; agora que melhorei, não posso deixar de ir saudá-lo.
Assim, Yinsi foi naturalmente conduzido por Yinzhen ao Palácio Yuqing.
Ao chegar, o Príncipe Herdeiro ainda estava no salão lateral do Palácio Qianqing, acompanhando o Imperador em suas tarefas, e Yinzhen aproveitava para monopolizar o tempo livre do irmão, levando-o ao Salão Zhibuzu para uma conversa íntima.
Diante do pequeno raposo ainda inocente, Yinzhen, com seu saber premonitório, abriu-se em simpatia, entretendo-o com assuntos que sabia agradar ao oitavo irmão, sem mencionar a caligrafia, apenas temas triviais.
Quando o Príncipe Herdeiro retornou, Yinzhen estava brincando com o chapéu de um enviado holandês e uma peruca europeia, divertindo-se com Yinsi; ambos riam com alegria.
— O que discutem de tão divertido, Quarto e Oitavo irmãos? — O Príncipe Herdeiro, sem convocá-los ao Salão Dunben, entrou diretamente no Zhibuzu.
— Príncipe Herdeiro. — Yinzhen apressou-se a chamar o irmão mais novo para saudarem o herdeiro, reprimindo seu desagrado. Nesta vida tão sem liberdade, até sentar-se perto era motivo de cautela, quanto mais debater sobre a existência.
Yinsi, com seus oito anos, humilde e sagaz, já sabia olhar o irmão mais velho com admiração, transformando dois ruyis dispensáveis em símbolo de laços fraternos profundos, mesmo que suas palavras fossem um tanto exageradas, agradando ao Príncipe Herdeiro, que sorriu com benevolência.
Yinzhen, fingindo o sorriso, pressentiu novamente uma inquietação.
O Príncipe Herdeiro, já com quinze anos, era rodeado de belas donzelas e eunucos, entre os quais apreciava especialmente o delicado e belo Arjisun, sempre ao seu lado.
Enquanto Yinzhen se perdia em pensamentos, o Príncipe Herdeiro já orientava Yinsi em suas tarefas e convidava-o a permanecer para uma refeição com os irmãos.
Yinsi, surpreso e honrado, respondeu:
— O convite do Príncipe Herdeiro é uma honra, mas, tendo estado enfermo, não fui prestar respeitos à mãe; hoje não posso faltar.
Yinreng, o Príncipe Herdeiro, apenas sugeriu por cortesia. Este irmão tinha beleza e inteligência, mas era da linhagem do primogênito; ainda pequeno, um gesto amistoso era suficiente, pois se realmente o favorecesse, o imperador poderia desconfiar. Por isso, acenou:
— Não se preocupe, eu mesmo ando ocupado, não tenho dormido direito. Se ficar, só terá o Quarto irmão por companhia. Ele anda comendo apenas vegetais; você, ainda em crescimento, não precisa acompanhá-lo.
Yinzhen pensou consigo: “Quando jovem, o pai também era vegetariano e devoto, mas era alto e distinto, elegante e cheio de espírito.”
Yinreng voltou-se para Yinzhen:
— Quarto irmão?
Yinzhen respondeu prontamente:
— O Oitavo irmão acaba de se recuperar; devo acompanhá-lo ao Palácio Zhongcui para que possa descansar em paz.
Yinreng assentiu casualmente:
— Então vão logo, para não cruzar com a mãe durante a refeição e causar incômodos.
Logo, Yinzhen conduzia o pequeno Yinsi ao Palácio Zhongcui, com criados e eunucos discretamente se afastando ao longo do caminho.
Yinzhen hesitava, sem saber como advertir o irmão sobre o Príncipe Herdeiro. Era difícil calibrar o tom: se Yinsi passasse a detestar sentimentos masculinos, ele próprio teria trabalho dobrado para corrigir o rumo do império.
Foi quando Yinsi falou:
— Quarto irmão, aguente mais um pouco; o pai não permitirá que você compartilhe a mesma residência com o Príncipe Herdeiro por muito tempo.
Yinzhen, surpreso, quis instintivamente repreender: “Impertinente! Por que eu haveria de aguentar? Morar com o Príncipe Herdeiro é honra!” Mas, ao encontrar o olhar do irmão, hesitou e, desanimado, olhou ao redor:
— Só você é tão esperto. Se alguém ouvir isso, minha vida estará nas suas mãos.
Yinsi mostrou um ar de dúvida, por não ter sido repreendido, e murmurou:
— Conversas de gentleman não precisam de recato; aqui não há onde se esconder, e a cem passos qualquer um vê com clareza, não há o que temer.
Yinzhen não se recordava se, na vida passada, Yinsi era tão pouco reservado em sua infância; lembrava apenas que, ao crescer, o irmão tornara-se mordaz, o nono era impulsivo, e ambos se colocavam em risco com cada palavra. Talvez, em algum momento, Yinsi tenha confidenciado algo, mas acabou transformado pelo cotidiano de repreensões, tornando-se incapaz de franqueza.
Yinzhen recordava seu propósito nesta vida e apreciava sinceramente essa atmosfera de “nenhum receio entre nós”. Apertou suavemente a mão macia do pequeno Yinsi:
— Basta que diga isso a mim. Onde se vive, não importa. Eu, que nem no Palácio Yonghe sou bem-vindo, estar sob proteção do Príncipe Herdeiro é melhor que nada.
Ao demonstrar fraqueza, Yinzhen sentiu o mundo desabar.
Yinsi, ainda jovem, não sabia confortar; apenas apertou a mão do irmão:
— Não se preocupe, Quarto irmão, foi minha fala imprópria.
Yinzhen percebeu ali uma oportunidade e prosseguiu:
— Você não errou. Minha mãe não me quer; não há quem não saiba disso no palácio. Morar em Yuqing é um arranjo provisório; não posso ir ao seu encontro sempre, o que cria distância.
Essas palavras, que Yinzhen imaginava serem difíceis de pronunciar, saíram de modo natural. Na vida anterior, ele se esforçara para ocultar a vergonha da desavença materna, mas agora confessava a um rival de sentimentos ambíguos, sentindo até certo alívio.
Yinsi, mesmo tão pequeno, já havia provado das amarguras do palácio. Tinha duas mães, mas preferia ter apenas uma, simples e verdadeira, ao invés de aprender a agradar a todos e não ofender ninguém.
Ele disse:
— Quarto irmão, eu sei quem me faz bem.
Yinzhen saboreou a doçura de revelar sua vulnerabilidade e, sem pressionar, sorriu ao puxar o irmão pela mão:
— Vamos, não deixemos a mãe esperar.
Assim, de mãos dadas e ombro a ombro, os irmãos foram prestar respeitos no Palácio Zhongcui.
O irmão mais velho também estava lá, tendo passado dias ocupados coletando informações sobre armas em navios holandeses, e aproveitou a folga para acompanhar a mãe durante a refeição.
A Concubina Hui reteve também Yinzhen e Yinsi, instruindo a cozinha a preparar dois pratos vegetarianos com óleo.
Yinzhen aproveitou a refeição, mas não se demorou.
A Concubina Hui demonstrava claramente sua insatisfação pela proximidade do Oitavo irmão consigo, preferindo incentivar o vínculo entre o primogênito e Yinsi. Yinzhen, ostentando o rótulo de aliado do Príncipe Herdeiro, era deslocado, despedindo-se com elegância.
Ao partir, Yinzhen percebeu Yinsi, encantado, indagando ao irmão mais velho sobre tudo, exibindo uma expressão de admiração inocente, exatamente o tipo que o pai adorava observar.
Por alguma razão, Yinzhen não pôde evitar um suspiro em favor do irmão.
Ao retornar ao Salão Zhibuzu, Yinzhen achou que seus esforços anteriores haviam sido tolos. Não podia tratar o Oitavo irmão como filho; ele era mais consciente do próprio caminho do que imaginara.
E assim, teve uma noite tranquila de sonhos suaves.
O imperador passou dias ocupado com os assuntos dos enviados holandeses, e o Príncipe Herdeiro, junto a Suo'etu, estava igualmente atarefado.
Yinzhen, temendo que o Oitavo irmão caísse em armadilhas, evitava convidá-lo com frequência, dedicando-se aos estudos e ao trabalho escolar. Revisitar as lições do passado era interessante e não tomava muito tempo.
O Príncipe Herdeiro enviou He Zhu'er para informar Yinzhen que o Salão externo do Palácio Yuqing estava livre para seu uso, mas o pequeno escritório no lado oeste, destinado à leitura dos relatórios do Príncipe Herdeiro, deveria ser evitado.
Yinzhen, ao contrário de sua vida anterior, já não se angustiava com a recusa da Concubina De em criá-lo; quando se cansava dos textos, ia ao escritório buscar livros para entreter-se.
Certo dia, sozinho, devolveu um livro que havia pego anteriormente e, distraído, retirou um volume chamado “A Sombra das Flores através do Véu”. Assim que o abriu, ficou atônito e, por um descuido, deixou o livro cair ao chão.
Su Peisheng, que estava no salão externo, ouviu o barulho e chamou:
— Senhor?
Yinzhen já havia recuperado a calma, abaixou-se e recolheu o livro, respondendo:
— Nada, foi só um descuido.
Ao retomar “A Sombra das Flores através do Véu”, mesmo sendo um velho espírito experiente, não pôde evitar que o rosto se ruborizasse e o coração acelerasse: o livro era repleto de ilustrações coloridas e detalhadas, mostrando homens e mulheres entrelaçados, em todas as posições imagináveis, dois, três, quatro juntos, em cenas de difícil descrição.
O Príncipe Herdeiro deixava tal livro obsceno em plena vista, sem pudor algum!
Envergonhado e irritado, Yinzhen fechou o livro com força e o devolveu à estante, retirando outro volume ao acaso e saindo rapidamente.
Ao retornar ao Salão Zhibuzu, tomou um chá frio para acalmar-se, e, fingindo tranquilidade, abriu o novo livro.
A xícara estalou no chão, espalhando água por todo lado.
— Senhor! Machucou-se? — Su Peisheng, desta vez mais próximo, correu para socorrê-lo.
Yinzhen fechou o livro abruptamente; na capa, os caracteres dourados “O Tesouro da Degustação das Flores” sobre um delicado desenho de orquídea pareciam elegantes, mas o conteúdo era imundo.
Enquanto Su Peisheng limpava o chão, Yinzhen conjecturava quem teria trazido tais livros ao Príncipe Herdeiro, não era de admirar que ele se tornasse tão depravado. Observando os movimentos entre o Príncipe Herdeiro e Arjisun, suspeitava que já houvesse experimentado tais prazeres. Se os servos trouxeram tais coisas para agradá-lo, mereciam punição severa.
Após trocar o chá, Su Peisheng anunciou a refeição.
Yinzhen não fingiu mais compostura, folheando cuidadosamente “O Tesouro da Degustação das Flores”, enquanto sua mente era invadida por lembranças de seus envolvimentos com Yinsi nos tempos do Palácio Yangxin e na Ilha Fuhai.
Tudo aquilo já se passara há mais de uma década; nos anos de solidão, o tempo havia apagado as cores do passado.
Pensava ter esquecido, mas, por causa daquele breve momento de mãos dadas, tudo voltava a pulsar.
Nota do autor:
Quarto irmão enfiado nos cobertores lendo livros eróticos: “Naquela época, eu era tão correto que nem conhecia tais artifícios... Que perda... Especialmente para o Oitavo irmão.”
Comentário do autor:
O Quarto irmão ainda vê o Oitavo apenas como alguém a ser conquistado e subjugado; só ao testemunhar a árdua luta do Oitavo, compreenderá o sentido da tolerância e da compaixão.
Intervenção da Quarta irmã:
Tolerância? O que é isso?
P.S.: O Salão Zhibuzu foi nomeado por Jiaqing; não encontrei os nomes dos salões do Palácio Yuqing na era Kangxi, por isso emprestei este.
Hipótese sobre o comportamento do Oitavo irmão antes dos dezoito anos, se muito querido pelo imperador:
Que tipo de criança os adultos gostam? Naturalmente, aquelas lindas, inteligentes e que sabem agradar na hora certa. Portanto, pode-se supor que Segundo e Oitavo irmãos, aos dezoito anos, eram ambos extremamente belos em sua infância.