Capítulo Um - Irmãos na Adversidade
O povoado de Xingfa era uma pequena aldeia composta por apenas quarenta ou cinquenta lares, mas, apesar de sua modéstia, reinava ali uma ordem singular. Entre as dezenas de famílias, somente duas possuíam casas de tijolos e telhas: uma pertencente ao recém-empossado chefe do povoado, Geng Adu, e a outra ao notório malandro local, Lobo San.
Geng Adu, embora ocupasse o cargo de chefe há menos de dois anos e fosse apenas o líder de um pequeno povoado, não se sabe por quais artimanhas, conseguiu erguer uma casa espaçosa de três cômodos, feita de sólidos tijolos e telhas. Sua residência, ampla e luminosa, situava-se no melhor terreno possível — bem ao centro da aldeia —, destacando-se de tal maneira que parecia um cisne entre galinhas, brilhante e chamativa. Os habitantes da vila referiam-se àquela casa como o Palácio de Epang, alusão grandiosa que a Geng Adu pouco importava, pelo contrário, parecia-lhe um título de prestígio; afinal, assim, sentia-se de alguma forma ligado à nobreza imperial.
Não era mistério para ninguém que a esposa de Geng Adu, Hu Yanghua, mantinha laços de parentesco, e talvez algo mais, com o secretário de um vice-prefeito da cidade. Por isso, não surpreendia que Geng Adu, homem cuja instrução mal ultrapassava os primeiros anos do ensino fundamental, houvesse desbancado o velho chefe Zhang Jiusu para assumir o posto de líder do povoado de Xingfa. Ademais, o rapaz era dotado de certa astúcia; pouco após tomar posse, ganhou a simpatia e proteção do secretário do partido e do prefeito da vila, seus superiores diretos, assegurando assim seu cargo e passando a encher os bolsos sem maiores preocupações. Não se pode negar, contudo, que parte desse êxito devia-se à sua esposa: quando o secretário ou o prefeito visitavam sua casa, invariavelmente deixavam-se embriagar a ponto de ali pernoitar, apesar de a residência deles distar apenas dois ou três li dali. Não era nada em particular, não fosse pelo fato de que, sempre que um dos superiores ficava, Geng Adu saía para jogar mahjong e passava metade da noite fora. O segredo, dispensando explicações, era conhecido por todos.
No extremo leste da aldeia, erguia-se uma pequena e velha casa de barro, composta por dois cômodos. Seus alicerces, corroídos pelo tempo e pela negligência, ameaçavam ruína iminente; talvez apenas se mantivesse de pé por conta de duas estacas de madeira, cravadas ao lado, sem as quais o vento já a teria derrubado.
À porta dessa morada, dois rapazes de dezessete ou dezoito anos choravam copiosamente, enquanto alguns vizinhos, movidos por compaixão, tentavam consolá-los.
— Fusheng, não fique tão triste. Não culpe sua mãe! Ela foi vencida pelo sofrimento, não pôde suportar mais e, por isso, partiu... deixou vocês, deixou esta casa. Vocês já cresceram, devem aprender a viver sozinhos. Se enfrentarem dificuldades, procurem as pessoas da aldeia, todos ajudarão vocês! — dizia, comovida, a segunda tia, vizinha solidária dos irmãos Fusheng e Fugen. Mas a boa intenção não bastava para trazer de volta a mãe que fugira de casa.
— Por que ela nos deixou? Somos seus filhos de sangue! Ela é nossa mãe, nossa verdadeira mãe! Como pôde partir assim, de repente? O que será de nós dois? Nem temos mais quem decida por nós! — lamentava Fusheng, agachado, abraçando a cabeça, entre soluços.
— Mamãe! Mamãe! — chorava Fugen, um pouco retardado, sentado ao lado, clamando pela mãe incessantemente. Embora irmão mais velho, era Fusheng quem cuidava de tudo.
Fusheng era apenas dois anos mais novo que Fugen; o pai dos dois havia morrido há alguns anos, vítima de um acidente automobilístico. Fusheng, aos dezessete, estava prestes a concluir o ensino fundamental, mas, antes que pudesse prestar os exames, a mãe, incapaz de suportar o peso da vida, partiu sem aviso. Não era de estranhar: uma mulher sozinha, sustentando dois filhos — um com deficiência, outro ainda estudante —, sem recursos para fazê-lo estudar e sem meios de arranjar esposa para o primogênito. Partir não era solução, mas talvez o único caminho.
— Fusheng, não chore mais. Você já tem dezessete anos. Deve portar-se como um homem; as dificuldades podem ser vencidas e eu vou enfrentá-las ao seu lado! — disse Mingyue, colega, amiga de infância e confidente de Fusheng, menina admirada por todos na aldeia: gentil, estudiosa e de rara beleza, vista pelos professores como uma promissora jovem.
— Agora que mamãe se foi, não poderei mais estudar. O que me resta? Ficar em casa cuidando do meu irmão? Dificuldades podem ser vencidas, mas não por mim, não por alguém como eu! Agora estou completamente perdido! — Fusheng chorava com desespero.
Mingyue, tocada pelo sofrimento do amigo, não conteve as próprias lágrimas.
— Mingyue! O que faz aí parada? Volte para casa, faça suas tarefas, amanhã há aula! — ralhou, severa, Zhao Hongxia, mãe de Mingyue, irritada por ver a filha envolvida nos dramas alheios.
— Mãe... por que isso? Fusheng precisa de consolo! — suplicou Mingyue, puxada pela mãe.
— Volte imediatamente, não se meta onde não deve! Não me obrigue a repreendê-la diante de todos! — disse Zhao Hongxia, num tom que não admitia réplica.
— Ai, mãe, assim não dá! — respondeu Mingyue, sem ousar prolongar o confronto, receosa da ira materna. Virou-se, olhando com pesar para Fusheng, e foi embora, hesitante.
— Fugen, agora que mamãe se foi, ouça sempre seu irmão, está bem? Vocês têm que apoiar um ao outro, não o faça se aborrecer, senão quem cuidará de você? — suspirou, resignada, a segunda tia, dirigindo-se a Fugen.
— Irmãozinho, o mano vai obedecer! Não me deixe, por favor, não me abandone! — soluçou Fugen, ciente, apesar das limitações, de que sem o irmão estaria completamente desamparado.
— Fusheng, por que não procura Geng Adu? Peça a ele que lhes dê algum auxílio. Como irão sobreviver assim? Ah, que destino cruel! — sugeriu um vizinho, solidário. Mas, naquele momento, Fusheng já não conseguia ouvir ou pensar em nada, consumido pelo pranto.
A multidão dispersou-se, restando apenas a velha casa e os irmãos Fusheng e Fugen. Sem mais lágrimas para verter, sabiam que a piedade dos vizinhos seria passageira: dali em diante, dependeriam apenas de si mesmos.
Fusheng tomou o irmão pela mão e entraram na pobre morada. Dentro, nada havia: quatro paredes nuas, e mesmo elas ameaçando desabar. Sobre o kang, uma esteira de bambu surrada, duas velhas colchas amontoadas num canto. Dois potes rachados: um de água, cheio; outro de arroz, quase vazio.
Fugen sentou-se no kang, entretendo-se com um baralho velho e incompleto, enquanto Fusheng mergulhava em preocupação: ele sequer sabia cozinhar, o arroz estava no fim, não havia um centavo no bolso. Que futuro os aguardava? Talvez não restasse mesmo alternativa, senão recorrer a Geng Adu.
Hesitante, Fusheng rondou por longo tempo a porta da casa de Geng Adu, até que, por fim, tomou coragem e entrou.
&^^%# Irmãos de uma só vida, Capítulo 1 — Irmãos nas adversidades, Fim da atualização!